31.7.06

"Recordar é viver!"

Thaís Velloso

Lembranças, recordações... Como nossa mente é incrível. Às vezes um simples cheiro pode remeter-nos à tempos antigos, tempos que não voltam atrás. E como é legal embarcar fundo nessa viagem ao passado, e como é fácil às vezes. Outro dia me peguei na seguinte situação: estava na casa da minha avó, onde eu iria passar a noite; antes de dormir, fui ao banheiro escovar os dentes; e foi então que me deparei com um objeto que me trouxe inúmeras recordações passadas: uma pasta de dentes que eu usava quando era muito pequena, e que agora é usada por meu irmão mais novo. Sem coloca-la na boca, pude sentir novamente o seu gosto, e lembrei da época em que para escovar os dentes, era necessário que minha mãe colocasse um banquinho em frente à pia para mim. Foi inevitável a emoção, e com ela boas risadas. Ah, época boa...

"Oh que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais..."

É mágica a "gaveta" que temos guardada dentro de nós com tudo que já nos aconteceu. Todos os momentos bons, ruins, os traumas, as cicatrizes. E o incrível é que nós podemos voltar à tudo isso acionando-nos, por exemplo, através de um pensamento. Às vezes um pensamento ocasional, que nada tem a ver com a lembrança em si, mas acaba chegando até ela (sabe-se lá como). Nossa mente é fantástica, mas por vezes, traidora. Nos mostra, nos lembra, nos instiga; e no final, todo aquele mundo mágico não passa de fotografias do passado. Como é bom recordarmos nossos tempos... nossa infância, o primeiro amor, o primeiro beijo, a primeira decepção amorosa, nossa escola primária, nossos amigos do colégio, nossos professores, nossos entes queridos que já partiram dessa vida... Como é gostoso! E como é duro também. Porque por mais que tenhamos todas essas recordações, o tempo não volta atrás; e com isso vem a saudade, que lateja no peito querendo ser consumida de alguma forma.

Infelizmente não podemos agarrar todas essas lembranças e transforma-las em realidade novamente. Mas isso de certa forma é bom, por que se isso fosse possível eu nem quero imaginar o que as pessoas fariam. O mundo viraria um caos. As pessoas viveriam de lembranças, logo, do passado; e a vida não sairia do lugar. Já imaginou a loucura que seria viver dessas "lembranças-reais"?! Deve ter sido por isso que Deus nos deixou apenas a opção da "lembrança mental", assim nos contentamos em apenas lembrar, nos emocionar, mas depois, seguir nossas vidas.

Por vezes temos a impressão de havermos esquecido determinado acontecimento passado, devido ao longo período de tempo após. Mas isso é apenas ilusão. Basta olhar uma fotografia, por exemplo, que a lembrança volta nítida como se ela tivesse sido vivida no dia anterior. Todos nós já nos pegamos em situações de surpresa diante de uma fotografia antiga de algo que se fez há anos, décadas atrás. Nem lembrávamos mais daquele fato ocorrido. Mas a lembrança volta para nossa mente numa velocidade incrível, e é relembrada com um frescor invejável de detalhes. Nada está perdido quando se trata de nossa memória. Ela pode nos enganar quando falha, mas ela jamais esquece. É como se escondêssemos algo muito bem escondido, deixássemos por um longo período, e quando fôssemos procurar novamente não encontrássemos. Nós sabemos que o objeto está bem guardado em algum lugar, só não sabemos aonde. Na maioria das vezes, se faz necessário algum estímulo de recordação; como esses que eu citei (um cheiro, uma fotografia, um sabor, etc).

Somos movidos por esses estímulos. Faz parte da vida lembrar do passado de vez em quando, examina-lo, mas não passar daí. Nossas vidas só podem ser compreendidas quando olhamos para trás, mas só podem ser vividas quando olhamos para frente.

( thaphir@hotmail.com )
09/06/2006.